Do total de crédito repassado pelo Banrisul em 2010, apenas 7,5% dos R$ 17 bilhões foram injetados no setor rural. Muito pouco, segundo o diretor de crédito do banco estadual, Guilherme Cassel, que ocupou durante os oito anos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva o posto de ministro do Desenvolvimento Agrário (MDA), que usa como parâmetro o peso do PIB agropecuário na economia gaúcha. Para recuperar o que considera terreno perdido, Cassel mira os contratos do Programa Nacional de Financiamento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o desenho do primeiro Plano Safra estadual que deve direcionar ações para a colheita de 2011/2012.
O Plano Safra, que será o primeiro da história do Estado a partir da aplicação de lei sancionada em 2010, não deverá ter restrição de recursos. "Não há limite de caixa. Temos fontes em poupança e captação para ampliar nosso poder de fogo. Estamos dando o sinal de que o banco entrou de novo em campo e para ser um parceiro", diagnostica o dirigente, que formulou por oito anos, quando ocupou a pasta do MDA, o programa federal para agricultura familiar. Cassel cita que o impacto foi o avanço de 34% da renda do setor no campo, diante do padrão das famílias urbanas, durante os dois mandatos de Lula.
Conforme o novo diretor, os números do banco relativos ao primeiro trimestre, que devem ser conhecidos nos próximos dias, ainda não devem espelhar a nova estratégia. "Os primeiros meses são contaminados pela inércia da troca de governo. A nova diretoria só assumiu em março", previne o ex-ministro. Cassel lembra que apenas 37,8 mil contratos foram firmados dentro do Pronaf do ano passado, ante mais de 430 mil propriedades enquadradas no perfil do setor.
Para ampliar o poder nesta área, o banco estadual baterá de frente com o Banco do Brasil (BB). "Fomos perdendo clientes. Temos de recuperar espaço. Queremos ser vistos como um banco amigável e que resolve as demandas com rapidez", sinaliza o diretor. Alem do Pronaf, linhas para aquisição de tratores, como o mais Alimentos, também se mostraram fontes potentes para angariar renda. Os movimentos em busca do setor começaram com agendas institucionais, a partir de encontros com cooperativas, empresas ligadas ao setor e entidades de pequenos agricultores.
A meta é firmar convênios e entregar produtos e condições na medida da demanda. O Banrisul precisa agir pois tem sido ultrapassado por instituições como o Banco Sicredi, também com forte conexão ao segmento produtivo rural. Para incentivar e tornar a ação interna mais agressiva, a diretoria de Cassel deve incluir entre as variáveis de desempenho dos funcionários do banco os contratos e relacionamento firmado com a clientela rural. Para isso, a capilaridade da instituição, que está em quase todos os municípios gaúchos, deve ajudar.
"O crédito rural não era composição das metas dos bancários. Devemos introduzir este quesito no segundo semestre", projeta o diretor, que imagina a linha de frente de vendas do Banrisul como um braço da extensão rural. Na formulação do Plano Safra, o ex-ministro já desenha alguns parâmetros, que deverão incluir os segmentos a serem priorizados (plantio, bacia leiteira, irrigação). "Temos limites no orçamento estadual. Mas há chance de buscarmos linhas em instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)", sinaliza o diretor.
Já em vigor desde março as linhas de crédito para a ovinocultura servem de exemplo. O programa, que utiliza fundos do governo estadual para equalizar juros, está financiando a compra de reprodutores e retenção de matrizes. Já foram repassados R$ 7,58 milhões até 3 de maio. Do montante, R$ 5,45 milhões foram para manutenção de fêmeas nas propriedades e R$ 2,13 milhões para aquisição.
A modalidade atendeu a reivindicação do setor e é medida para evitar que produtores se desfaçam de matrizes ante maior demanda pela carne. Pelo programa, há redução de juros, que ficam em 2% para o setor familiar e em 5,7% para pecuaristas com maiores áreas. "No mercado as taxas seriam mais que o dobro", contrasta Cassel.